domingo, 26 de setembro de 2010

Matéria sem forma


A luz é ensurdecedora e o som cega. Um espaço eletrônico atópico e atemporal, com zilhões de corpos conectados, matéria sem face nem forma. O rítmo dos corpos, em uníssono, é imposto pela batida. As diferenças não exalam. O calor do corpo similar ao nosso. Mal sabemos a quem pertence. E nem interessa.

Por trás, agarram minha cintura. Ainda percebo a leveza e a delicadeza das mãos, e me deixo levar pela batida repetida. Encosto no corpo e este me toca. Não cabe saber quem é. E nem interessa. Prensa meu quadril contra o dele e me esfrego. Subitamente me vira e alcança meus lábios. O beijo, corpo, avesso do virtual. As mãos exploram a cintura, alcançam a pele que arrepia, apalpa os seios e os mamilos, que empinam. Cruzo minhas pernas ao redor daquele corpo, que me sustenta e me prensa. Por debaixo da saia, desloca minha calcinha e me preenche, a falange atinge minha garganta! A batida eletrônica comanda meus movimentos e a freqüência respiratória e cardíaca. Beijo furioso, lascivo, para que arranque toda a moral imposta, aquela que nos faz obedecer em troca de uma pseudosegurança social. Quero mais! Alcanço mais. As contrações se iniciam, esmagando as falanges com força, para desconstruir o que foi imposto como certo ou errado.

Um sorriso educado, gracioso, quase cúmplice, anônimo.

Viro-me e retomo o movimento do corpo na batida eletrônica.